sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Boxe - Os técnicos

Iniciei neste mês uma cadeira específica sobre filosofia na minha pós-graduação. Na última quinta-feira, lendo o material acadêmico, me dei conta que precisava escrever o presente texto, que há tempos venho preparando, tendo inclusive conversado com vários profissionais da área. Além disso, li um excelente artigo no site Ringue Master sobre treinadores de boxe, o que me motivou a escrever sobre coisas que não li no citado site. 

A notícia da morte de Angelo Dundee, um dos maiores técnicos de boxe de todos os tempos, foi o estopim de que eu precisava pra deixar de lado as procrastinações e escrever.

Como as idéias foram se aprofundando em conversas com pugilistas, treinadores, admiradores e secadores (alguns enquadrados em mais de uma dessas categorias), resolvi dividir o texto. Vamos então falar sobre técnicos de boxe.

Eu treinei com diversos técnicos ao longo da minha até o momento, curta carreira pugilística. E durante esse período também conheci e observei diversos outros técnicos, no Brasil, na Argentina e no Uruguai. O que estará escrito aqui vem das minhas observações e conversas com técnicos de boxe.

Primeiro ponto: técnicos não são vencedores nem campeões de boxe. Podem ter sido como lutadores. Ou serem vencedores em suas vidas. Mas o técnico fica do lado seguro das cordas. Não leva mais bordoadas, nas palavras de um folclórico treinador gaúcho. Um técnico pode formar um campeão. Ou vários. Mas aí ele será um formador de campeões, não o campeão. Deixem os louros da vitória pra quem deu a cara a tapa. Digo isso porque vi muitos técnicos que fazem pose de campeões e/ou malvadões. Geralmente é pra tentar suprir a frustração de não ter superado o MEDO de lutar.

Isso me lembra agora o segundo ponto: o MEDO. Muitas pessoas procuram academias de boxe (e outras lutas também, mas vou me ater ao boxe, que é a minha luta) pensando em lutar. Todo homem que quando garoto viu algum filme de boxe, em especial os da cine-série Rocky, sonhou em lutar. Se imaginou entrando num ringue e trocando golpes com um adversário. Alguns desses acabam procurando então (ou se deparando com) alguma academia. Uma boa parte destes que pretendem lutar acabam não conseguindo vencer o medo e nem chegam a estrear. Outros, um pouco mais corajosos, conseguem estrear e até mesmo fazer uma meia dúzia de lutas, e só. O medo sofre um pouco mais, mas acaba vencendo. Vários desses frustrados acabam virando técnicos (alguns excelentes, por sinal), outros viram secadores (tema de um próximo post) e outros seguem suas vidas de outra maneira. Inúmeros superam a frustração, sendo técnicos ou não.

E aí está o ponto que quero chegar: o TÉCNICO MALVADÃO, tenha certeza: é um CAGÃO que não conseguiu superar seu medo de lutar. Ele então se dedica a treinar lutadores e botar banca de BAD BOY nos eventos. Mas lutar que é bom nada. Certa vez vi em um evento aqui na região metropolitana de Porto Alegre, um sujeito ser chamado para ser jurado de uma luta. Era um jovem. Eu diria 24 anos no máximo. Enquanto ele era anunciado, caminhava com a cara feia e uma regatinha da sua academia. Foi então que o anunciador disse q ele estava dando aulas em sua cidade (uma cidade pequenina, realmente não lembro qual). Nesse momento então fiz as associações em fração de segundo: Lutou 1 ou 2 lutas + não superou o medo, mas precisa ser MALVADÃO + fez curso de instrutor de boxe + tá dando aula = TÉCNICO DE BOXE MALVADÃO.

Aliás, ser MAU é uma característica de lutadores, não de técnicos. O lutador botará a sua "MALDADE" a prova. O técnico jamais.

O terceiro ponto que eu queria tocar é uma peculiaridade do Rio Grande do Sul (creio que no resto do Brasil também, mas como em território nacional lutei só no RS, este será o exemplo): Muitos treinadores têm ÓDIO de boxe profissional. Conversei com dois lutadores profissionais gaúchos e os dois concordaram comigo, cada qual tentando explicar esse "fenômeno". Não pretendo me alongar nesse ponto. Provavelmente volte a ele em um artigo futuro.

Tive a honra de treinar com diversos treinadores, como foi dito mais acima. Todos eles de estilos bem diferentes (embora 2 deles tenham sido formados pelo meu formador). Mas nem todos os que me treinaram subiram ao córner comigo. Aliás, o córner é algo que me faz não ter vontade de ser técnico. Eu dificilmente consigo fazer o que o meu treinador pede, durante a luta. E nas vezes que me aventurei no córner de lutadores, como segundo (inclusive em lutas profissionais), constatei que é raro um lutador que consiga seguir as suas instruções, por mais fáceis que elas sejam. Enxergar o caminho da vitória e saber que ele está ao alcance do seu lutador, e o mesmo, por motivos que desconheço, não querer ou não conseguir seguir, é algo por demais de estressante.

É por isso que eu admiro não só os lutadores, mas também aqueles que nos ensinam com maestria a arte de lutar. Que conseguem nos motivar e instruir em situações de extrema adrenalina. Que enxergam potencialidades onde nós, lutadores, sequer suspeitamos. Que enxergam a vitória onde nós enxergamos a derrota. Estes são os técnicos de boxe.