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O Peido e a Impermanência

Publicado na revista Litera Livre, edição 21 (Mai/Jun 2020) 


O peido (e desde já peço que me desculpem pelo linguajar, mas tal palavra tem poucos sinônimos em nosso idioma) tem uma característica social, eu diria. Ele nos mostra a vacuidade de todos os rituais sociais de que participamos. 
Explico: imagine peidar, como peida em casa, durante uma reunião de trabalho (ou em uma confraternização com colegas). Imaginou? 

Enquanto nos esforçamos para segurar aquele gás, ele tenta nos mostrar que os fenômenos são vazios (ou gasosos?). Não possuem uma essência em si mesmos.

É tudo um teatro social. Interpretamos personagens e negamos a nossa vontade. Construímos cenários e nos apegamos a eles como se fossem reais, como se tivessem um sentido em si mesmos. 

“Cada momento é novo”, teria dito Saikawa Roshi, monge zen-budista. É uma frase que nos mostra a impermanência de cada momento de nossas vidas, que se esvai a cada novo segundo. Um simples flato nos mostra a importância de atentarmos para a fugacidade de nossas vidas e focar no que realmente importa. 

E o que importa de verdade, nesse mundo louco em que vivemos? Tudo se esvai e tudo se esvairá. Pessoas morrerão, sites sairão do ar. E ainda, nós morreremos e nossas fotos e arquivos pessoais se perderão na infinitude dos dados digitais.

O peido nos mostra que não queríamos estar naquela reunião chata do trabalho. 

É um lembrete de que a natureza é superior a nós. Podemos peidar a qualquer momento, assim como podemos morrer a qualquer momento. 

Quando a natureza chama, podemos contemplar a artificialidade do nosso cotidiano, essa contínua negação da vida e afirmação do superficial, do desimportante revestido de suprema importância.

Quando nossa vida ou integridade física correm perigo, nós temos um pequeno vislumbre da realidade, saímos de todo esse teatro social. O trabalho, móveis, eletrodomésticos... Tudo isso se torna secundário diante daquele risco. Entretanto, assim que nos acostumamos ao risco (ou este cessa), voltamos rapidamente ao teatro social. As pessoas têm medo de sair da caverna. 

E atacam ferozmente até mesmo aqueles que só viram de relance a saída da caverna.

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