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O Jogo da Morte

 Publicado na coletânea Prelúdio da Morte, da Editora Darda, no ano de 2020.


 

Semana passada, encontrei uma cadela agonizando em uma poça de sangue, perto de uma esquina. Largaram ela atropelada, na sarjeta. Ainda botaram umas folhas de jornal na cara, para ela aguardar a morte bem informada (é esse o futuro do jornalismo impresso?).

 

Ali, contemplando o sofrimento agoniante do animal, pude constatar as duas certezas da vida de todos nós: morte e sofrimento.

 

Urubu (?) imaginando as possibilidades em São Lourenço, MG

Buscamos distrações o tempo inteiro, seja para ocultar de nós mesmos a certeza da morte, seja para tentar mascarar o sofrimento.

 

A vida é uma sentença de morte, como bem escreveu Ajahn Brahm, monge budista da tradição Theravada. Quando inicia a nossa existência, recebemos já a nossa sentença: Morte! Mas para finalmente cumpri-la, precisamos, todos, passarmos por uma vida de sofrimento. Pode ser uma vida longa ou curta. Com muita ou pouca insatisfação. Mas os dissabores sempre estarão presentes. Até o momento derradeiro. E talvez depois.

 

Enquanto isso, preenchemos nossas vidas com coisas insignificantes, com o único propósito de tentar dar um sentido ou importância para a nossa irrelevante existência. Ou apenas tentar obter alguma felicidade. Mas esta, é composta apenas por alguns fugazes momentos, como um vento fresco em uma tarde de verão.

 

A vida é, inequivocamente, sofrimento. Nunca encontraremos felicidade plena nela. Podemos sim ter alguns momentos satisfatórios, mas como diria o enxadrista Rafael Leitão, não é possível ter tudo o que se quer.

 

Entretanto, via de regra, ninguém quer morrer. Nunca estamos preparados, embora tenhamos a vida toda para nos prepararmos para isso.

 

Não sabemos o que vem depois da morte. Ou se há um depois. Preferimos, sempre, nos apegar a uma remota possibilidade de felicidade. Como um enxadrista que conta apenas com o rei no tabuleiro, aguardando esperançosamente que o adversário afogue o nosso monarca e possamos sair ao menos com um empate.

 

Mas a única certeza, repito, é que seremos derrotados pela morte. E será depois de uma partida sofrida. E bem jogada, eu espero.

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