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O Teste do Palitinho

 Quando eu era pequeno, lá no Alegrete, ocorreu algo do qual lembrei dia desses. Fui listado como suspeito, juntamente com o meu irmão, em um fato de menor gravidade. Não consigo me lembrar o que era exatamente, mas não era algo que geraria violência física, como ocorria no caso de quebrar um copo ou manchar uma roupa, por exemplo.  Acho que tinha sido alguma coisa tipo desarrumar uma cortina.

Como ambos os réus alegaram inocência, minha mãe lançou mão de um expediente inédito até então: ela iria fazer O TESTE DO PALITINHO antes de dormir. Este teste iria apontar quem estava mentindo. Não sei exatamente em que consistia o teste, mas parece que era necessário uma bacia, água e um palito.

Esse teste, ao contrário do IBOPE, não tinha margem de erro: era infalível. Lembro que a mãe largou essa notícia bombástica e nos deixou no quarto, enquanto foi cuidar de  assuntos de adulto (preparar a janta, assistir Rainha da Sucata...). Fiquei extremamente tranquilo e aliviado, afinal eu tinha plena certeza de minha inocência e como o teste tinha eficácia maior que a da Coronavac, eu seria absolvido.

As horas se passaram e eu estava tranquilo, na expectativa da minha consagração como inocente. O teste mostraria que os adultos estavam enganados e tinham me acusado injustamente. Eles iriam reconhecer a minha inocência e com certeza se desculpariam pelo erro, exatamente como tinham me ensinado a fazer quando eu estivesse errado. 

Quando chegou a hora de dormir e estavam todos se recolhendo aos seus aposentos, perguntei sobre o resultado do teste, confiante que minha inocência estava comprovada. Minha mãe, que já nem lembrava mais do assunto, respondeu sem dar maior atenção: "os dois mentiram".

A ficha caiu (naquele tempo, existia telefone público e ele era com ficha). Tudo começou a se encaixar. Era uma farsa. Não existia jogo algum. E como não era nada muito grave a ponto de levar uma surra, como derramar café na pia acidentalmente ou sentir cócegas ao ser abraçado, o assunto não tinha maior relevância para os adultos. 

E então comecei a entender como funciona a vida em sociedade.

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